Mulheres dependentes químicas, saiba mais

por Tauama de Moraes
CRP 11 - 07100

O uso de drogas pelas mulheres sempre ocorreu ao longo de toda a história da humanidade, assim, não é um fenômeno contemporâneo. Porém os transtornos causados em decorrência deste uso têm sido datados progressivamente a partir de meados do século XX. Saiba mais sobre o assunto. 

O consumo de substâncias químicas pelas mulheres hoje

O fato é que as mulheres estão aumentando o consumo de drogas de maneira significativa, como demonstram os estudos e estimativas do The National Institute of Mental Health Epidemiological Catchment Area Study

Segundo os quais, aproximadamente, 5% das mulheres americanas apresentam questões de abuso e de dependência do álcool e outros 5% apresentam problemas de abuso e de dependência em relação a outras drogas.

Também existem outros dados significativos e muito preocupantes que são apresentados pelo National Comorbidity Survey, que revelam que 8% das mulheres dos EUA apresentam abuso e dependência para o álcool, enquanto 6% delas apresentam abuso e dependências para as outras drogas, tendência apresentada por pesquisas realizadas em todo o mundo.

Estudos no Brasil e no mundo identificam uma predominância masculina no abuso da maioria das substâncias, com exceção, em alguns países, dos medicamentos, principalmente os benzodiazepínicos, que apresentam uma predominância de abuso entre as mulheres.

Estima-se que no Brasil a razão homem/mulher é próxima a encontrada nos estudos americanos: para cada 3 homens, 1 mulher faz uso abusivo de substâncias psicoativas. No entanto, a incidência da dependência química entre mulheres não é irrelevante e varia muito a cada região geográfica.

Devido a referida predominância masculina na adicção, a maior parte dos estudos neste campo estão voltados para análise da doença, causas, comprometimento e consequências, bem como estratégias de tratamento e manutenção de recuperação voltadas ao gênero masculino.

Tratamento para mulheres dependentes 

Estas estratégias e estes estudos foram sendo utilizados para tratamento de mulheres, sem sequer se considerar as diferenças de gênero. 

Tanto características sociais, hormonais, neurofisiológicas, emocionais e psicológicas, que são tão significativas e determinantes nesse processo de busca de ajuda, tratamento e manutenção de recuperação, inclusive esta especificidade de gênero poderia ser utilizada de maneira a auxiliar o processo de recuperação da adicção de forma decisiva.

A mulher se relaciona de modo distinto com o álcool e as outras drogas, desde o uso inicial, às justificativas de uso, como da relação emocional com as substâncias, a demora em pedir ou procurar ajuda e a dificuldade para se recuperar de fato . 

Já que se trata de um processo ou uma relação diferente ao dos homens, a recuperação destas requer cuidados também diferentes.

A primeira vez nas drogas

Quanto ao uso inicial, para as mulheres este ocorre geralmente relacionado a algum acontecimento em sua vida, como morte de ente querido e divórcio. 

Diferente dos homens onde não se faz essa relação, já que o uso inicial destes está mais ligado à ideia pertencer, curiosidade ou cultura de grupo.

Quanto à forma de se relacionar com as substâncias, a mulher é mais emotiva, passional, parece até que vive um relacionamento afetivo com as substâncias, busca companhia, atenção e afeto, estabelecendo um vínculo mais forte que dos homens, que parecem buscar mais o prazer, o poder e status em si.

Reconhecendo a dependência química 

A mulher esconde por mais tempo seu uso de drogas da família e dos amigos e depois a própria família, que tem um papel muito importante, tende a esconder também os problemas com uso abusivo de substâncias. 

Tanto a adicta como sua família têm dificuldade de aceitar o problema e buscar ajuda, em um sistema de negação em que ela própria demora muito tempo para aceitar que existe um problema e muito mais tempo para pedir ou aceitar ajuda profissional, e depois os seus familiares repetem este comportamento, tentando resolver sozinhos, em família. 

Após vencida a barreira da negação, típica da doença, somente como último recurso e após muitas tentativas e fracassos, muito sofrimento e dor, tanto desta mulher como de sua família e amigos próximos, se decide pela busca de ajuda especializada, seja em grupos anônimos ou equipe profissional.

O peso da dependência química para a mulher 

Outra barreira forte são os preconceitos ou estigmas em relação ao dependente químico em geral e especialmente em relação à mulher adicta.

Nossa sociedade julga e condena os adictos, rotulando-os de “vagabundos, sem vergonha, ladrões, sem jeito e de vida fácil”. Quando se trata de uma mulher, se acrescenta a estes julgamentos mais alguns: “promíscua, fácil, vendida, interesseira, prostituta”.

Vale destacar que as aspas acima foram colocadas para destacar representações de pensamentos do senso comum, dos quais discordo veementemente.

Mesmo vencidas essas barreiras, quando uma mulher decide procurar ajuda e inicia um tratamento, seja este ambulatorial, em grupos de mútua ajuda, em centros de tratamento ou clínicas terapêuticas, ainda permanecem outras dificuldades.

Talvez a principal delas seja o desrespeito e falta de empatia de outros adictos. 

Pois alguns adictos homens, em alguns casos, buscam se aproximar dessas mulheres que buscam uma vida nova, pretendendo “sexo fácil”, aproveitando-se da fragilidade com que ela chega recém saída da dependência ativa, da carência afetiva e da baixa ou nula autoestima. 

Tudo isso sem se importar com os danos que, provavelmente, causará nesta pessoa, que pode até desistir de buscar ajuda e recair, ou tirar a própria vida. 

Isso acaba tornando um ambiente que deveria ser seguro para busca de autoconhecimento e mudança em um ambiente hostil onde predominam fofocas, julgamentos, desconfiança, inimizades, restrições, dificuldades de fazer amigos, e a sensação de estar sendo usada.

Existem algumas alternativas que vêm buscando priorizar e utilizar as especificidades de gênero para favorecer ou auxiliar no tratamento e recuperação.

Uma delas é o livro intitulado “Os doze passos na perspectiva da mulher” de Stephanie S. Covington, que trata do tratamento de um programa de 12 passos com uma abordagem das especificidades femininas no tratamento de alcoolistas; abertura de clínicas de tratamento de dependentes químicos exclusivamente para o público feminino. 

Ademais existem alguns grupos e reuniões de intensão feminina em grupos de ajuda mútua.

Aqui no Brasil, dentro de Narcóticos Anônimos, por exemplo, temos atualmente cerca de 7 grupos existentes e atuantes distribuídos em todas as regiões do país. 

Eles visam disponibilizar um espaço mais favorável para discussões e busca de apoio e ajuda mútua, força e união entre as mulheres, porém não excludentes de gênero.

Assim, o tratamento e recuperação de mulheres quanto ao abuso de álcool e outras substâncias psicoativas é mais difícil, devido a estas barreiras internas e externas, pessoais e sociais, porém é possível e hoje inúmeras mulheres veem vencendo essas barreiras e se tornando multiplicadoras, exemplo de força umas às outras.

Quer saber mais sobre o tratamento para mulheres dependentes químicas? Fale conosco.

Autora:

Lívia Nunes, conselheira da Casa Despertar

Graduanda em serviço social pela Estácio (Universidade Estácio de Sá), Conselheira em Dependência Química em 12 Passos, atuando nesta área desde de 2012.  Qualificada pela FEBRACT – Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas como coordenador, dirigente e monitor (Módulos 1 e 2), tendo ainda concluído os cursos SUPERA – Sistema para detecção do Uso abusivo e dependência de substâncias Psicoativas: Encaminhamento, intervenção breve, Reinserção social e Acompanhamento promovido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) do Ministério da Justiça (MJ) e Prevenção e Tratamento em Dependência Química promovido pelo Centro de Referência sobre Drogas do Estado do Ceará, dentre outros cursos na área.

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